Espírito de equipe

Mais do que força, a sincronia e o companheirismo é que levam a canoa havaiana para a frente. O Desafio Ilha das Cabras, no Iate Clube de Santos, mostrou que não é fácil seis pessoas remarem juntas por 2h30

Fotos Douglas Moreira

Esporte relativamente novo no Brasil, mas já bem antigo na região da Polinésia – conjunto de ilhas no Oceano Pacífico, entre a Austrália e os Estados Unidos, do qual fazem parte o Havaí e o Taiti –, a canoa havaiana, ou va’a, como é originalmente conhecida, foi muito usada como meio de transporte na antiguidade, pois os polinésios faziam viagens de mais de 4 mil quilômetros, navegando sem instrumentos e usando somente as estrelas, os ventos e as ondas para se orientar.

No Taiti, a maior ilha da Polinésia Francesa, é o meio de transporte que as crianças usam desde os 2 anos. “Eles respeitam muito a canoa, é como se fosse um membro da família. No Havaí, eles não emprestam a canoa para ninguém, porque ela tem a energia deles”, conta Sergio Prieto, professor de canoagem da escola Matero e atleta da equipe Samu.

Cada região acabou desenvolvendo suas embarcações de acordo com as características locais. No Havaí, por exemplo, onde o mar é mais agitado, as canoas têm uma curva de fundo envergada, enquanto, no Taiti, as embarcações possuem formato mais alongado, com um cockpit fechado para cada um ou dois remadores, dependendo do modelo. Todas têm em comum as três partes fundamentais nesse tipo de embarcação: o casco (ou hull), o flutuador (ou ama) e os braços que ligam um ao outro (yakos).

Ao longo do tempo, a canoa acabou transformando-se em uma forma de desafio esportivo, sendo a categoria mais tradicional a embarcação com seis tripulantes, que tem, em média, 14 metros e pesa 180 quilos. Há, ainda, a individual e a de dois tripulantes.

No Brasil, há cerca de 7 mil praticantes, uma competição por mês que reúne 20 equipes na Open, categoria principal dividida por categoria, idade e sexo. A equipe Samu, formada há sete anos por oito componentes com base na Represa de Guarapiranga, em São Paulo, tem se destacado. “A base veio do rafting. Além de juntar os amigos, queríamos montar uma equipe mais compromissada”, conta Sergio Prieto. Foi campeã da tradicional Liberty Challenge, em Nova York, em julho, e fez bonito na Moloka’i Hoe, prova mais importante no Havaí: entre 106 canoas, conquistou a 17ª colocação geral, depois de concluir o desafio de 62 quilômetros em 5h30, entre as ilhas de Molokai e Oahu. Nesse tipo de prova de longa distância são realizadas trocas de atletas, porque o desgaste é grande. Dessa forma, saem três e entram três com a canoa em movimento – é como o pit stop, pode-se levar vantagem ou perder muito tempo. Nesse percurso no Havaí foram realizadas 20 trocas!

O bom resultado deve-se, em grande parte, ao entendimento da equipe a bordo. Para Sergio Prieto, que também é professor de canoagem na escola Matero, na raia da Cidade Universitária, trata-se de um esporte essencialmente de equipe: “A sinergia é mais importante do que a força. Vejo na escola que uma equipe mediana com seis pessoas amigas vence ao disputar contra uma equipe de seis caras que remam bem, mas se dão mal. A verdade é que o ego não cabe na canoa”.

Os oito componentes da equipe Samu treinam individualmente nos dias úteis e, nos fins de semana, encontram-se na Represa de Guarapiranga para o treino coletivo. Afinal, o vento influencia a canoa – pode ajudar ou atrapalhar muito –, mas é mesmo a sincronia dos seis remadores e a concentração que fazem a diferença. “Além de ser meu esporte, é meu trabalho. Me faz bem estar ali, gosto de viver a canoa”, diz Sergio.

Em outubro, o Iate Clube de Santos foi palco do Desafio Ilha das Cabras, patrocinado pela Suunto, num percurso de 30 quilômetros em frente à orla do Guarujá, no litoral paulista. Com a participação de 12 canoas mistas – com três homens e três mulheres –, sendo sete na categoria Open e cinco na Máster, a prova teve largada em frente ao Clube de Pesca de Santos, na Ilha das Palmas, e a equipe vencedora foi a que contornou a Ilha das Cabras e voltou primeiro. Com 2h38m30, o Matero Samu foi o primeiro a cruzar a linha de chegada. “Foi o desafio mais longo em quilômetros sem troca, além de ter o diferencial de ser mista. A equipe que se sobressai é a que consegue que todos façam força, sem exigir mais dos homens”, avalia Sergio.

Foi muito curioso, porque apareceram muitas canoas e muitos stand ups para assistir à largada, o que triplicou o número de participantes na raia, e eles acompanharam a prova por alguns metros, fazendo do cenário um espetáculo.

O primeiro e o segundo colocados foram premiados com um Suunto Ambit 3 com GPS e monitoramento cardíaco, além de fones de ouvido JBL Harman. Um Prêmio especial Suunto foi dado ao Floripa Va’a, pelo ânimo e disposição de um casal de Florianópolis de 66 anos, que velejou bem e se divertiu muito.

Após o término da competição, houve um coquetel para canoístas e convidados, com música, drinques, muita cerveja Sol, food truck Buzina, do chef Marcio Silva, que ficou impressionado com a quantidade de hambúrgueres consumida pelos canoístas, e a entrega de prêmios no bar do Mirante.

Em meio aos iates e veleiros, o evento levou um público e um esporte diferente ao Iate Clube de Santos. “Esse modelo de evento mostra a versatilidade do clube e traz um colorido especial à sede”, declarou o comodoro Berardino Fanganiello.

“A gente nem sabia que a prova ia tomar essa proporção tão grande. Ficamos contentes com o resultado, a forma como ocorreu. Sem o apoio do ICS, não conseguiríamos realizar”, diz Rogério Mandetta, diretor da Suunto. Sergio Prieto completa: “Como atleta é bom saber que um clube do porte do ICS abraçou essa competição, é uma oportunidade de mostrar um pouco dessa modalidade que é muito nova no Brasil. Quero também agradecer à Suunto, porque é importante para uma equipe ter o apoio de uma empresa desse porte”.

A experiência foi tão boa que deixou a expectativa ­– e a torcida – de que seja repetida em 2017.

Resultados

Open

1 Matero Samu 2:38,30

2 São José dos Campos 2:43,10

3 Poseidon 2:44,36

4 Suunto Samu 2:45,36

5 Paddle Club Ilhabela 2:58,21

6 Atr Hoe mana 3:03,58

7 Floripa Va’a 3:05,48

 

Máster

1 koa ycp Matero 2:49,26

2 atr Hoe mana máster 3:02,40

3 São José dos Campos 3:06,29

4 kahiko kai Matero 3:41,05

5 Matero kahiko kai 3:43,07

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